EXTINÇÃO

Um taxista britânico foi a primeira pessoa a ser mumificada com técnicas egípcias em 3 mil anos. O taxista, que havia recebido o diagnóstico de câncer terminal nos pulmões, doou seu corpo para ser mumificado e fazer parte de um documentário sobre as técnicas egípcias. Um dos especialistas que participaram do processo passou os últimos 19 anos pesquisando as antigas múmias para desenvolver as técnicas corretas.

Excelente idéia a ser plagiada. Mumificar. Não mumificar seres humanos ou algum outro habitante da Terra, mas mumificar alguns sentimentos e virtudes. Convencer os responsáveis pela mumificação a divulgar suas técnicas para que sejam feitas outras. A idéia de se fazer uma múmia é eternizar algo. Milhares de anos depois, os faraós ainda existem. Não são apenas uma lenda.

Há muitos candidatos a múmias. Honestidade, caridade, amor, respeito, educação. O motivo é simples. O que se vê atualmente é quase a extinção destes e de tantos outros valores. Uma verdadeira caça a tudo que é valor humano. Caso continue essa caça, sobrarão apenas escombros do que outrora habitou entre os homens. E quando extintos, existirão apenas em histórias que os avós contarão aos netos. Histórias de uma época longe e inimaginável.

Para que essas virtudes, esses valores, não sejam apenas lendas que deixam a dúvida se realmente existiram ou não, o melhor a se fazer é mumificá-los. É bem verdade que uma múmia não é uma coisa muito bonita. Para alguns é um tanto quanto amedrontadora. Contudo, ainda é melhor. Melhor ter uma prova feia e assustadora, mas ainda assim uma prova, do que apenas vagos relatos que fazem as dúvidas pairarem no ar.

Haveria museus nas grandes metrópoles mundiais. As escolas fariam excursões para que as crianças vissem o que preenchia o ego de seus antepassados. Galerias imensas com redomas de vidro protegendo as múmias. Placas indicariam o nome, a função e o ano de extinção. “Respeito – tratar o outro como a si próprio – extinto em2039”. As crianças olhariam com certo ceticismo. Algo tão longe da realidade é difícil de se imaginar.

A maior parte das pessoas não visitaria os museus. Dos poucos que visitariam apenas alguns se interessariam pelas múmias cuidadosamente guardadas. Talvez um dia, uma pessoa se interesse em desvendar os mistérios por trás de tudo aquilo. Onde essa tal de humildade teria existido? Quem seriam os responsáveis pela extinção de tudo aquilo? É pouco provável, mas ainda há esperança, que alguma criança descubra como ressuscitar as múmias e dê ao Mundo mais uma chance de ser amado.

About Só para Raros!

Comunicóloga graduada pela PUC Minas, Jornalista e blogueira.

Posted on 20 de Outubro de 2011, in Uncategorized and tagged , , , , , . Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. Interessante sua colocação. Porém, o que mais fazemos no mundo, há muito tempo, é mumificar as virtudes humanas. Todas as pessoas querem ser boas e corretas, no entanto suas vidas (e sistemas sociais) as impede de serem o que querem, obrigando-as a serem o que precisam para sobreviverem. Assim, elas (as pessoas) deixam suas virtudes mumificadas, guardadas na consciência, enquanto lutam para vencer nas suas vidas e esperando o dia em que poderão ressuscitá-las para se sentirem realmente humanas. Mas mesmo que consideremos as pessoas de grandes virtudes uma benção em nossas vidas, não podemos descartar que os defeitos alheios sejam uma escola para nós. Devemos tratá-los não como defeitos, mas como obstáculos, pois ao lidarmos com esses, nos tornamos mais evoluidos na lida com as relações sociais. Uma pessoa com defeitos não é um inimigo, mas uma oportunidade de aprendizado, e ao aprendermos a aceitar e lidar com seu(s) defeito(s) perceberemos que esta também tem grandes virtudes (qualidades). O único defeito que existe, em minha opinião (bem particular), é a Falsidade. Este defeito é adornado por mentiras e só é possível de ser “trabalhado” por alguém bem próximo. É um defeito injusto e trapaceiro, porque não temos tempo para aprender com ele e nem tentar superá-lo já que quando o descobrimos é porque já fomos traídos ou prejudicados por alguém em que confiávamos em demasia. Esse defeito não traz conhecimento, mas arrependimento. Não nos permite a superação, mas a falta de confiança em nosso próprio discernimento, pois nos culpamos por ser tão tolos a ponto de não saber em quem confiar. Mas isso talvez um dia, num futuro bem distante, será observado. As gerações futuras verão nossas atitudes, desenrolarão nossas múmias (virtudes) e, aos pés de nossas lápides, irão nos chamar de tolos (como fazemos com os antigos egípcios) por acreditarmos em deuses de lata (carros do ano), em deuses de papel (dinheiro) e até mesmo deuses de pano (exagerado escravismo da moda) e ignorarmos o que realmente importa: o amor próprio e próximo. Então, enquanto ainda nos impomos nossa cultura retrograda, ou escolhemos a mumificação das virtudes e damos andamento à vida, ou escolhemos viver sozinhos em nosso próprio mundo ( o que seria somente uma técnica um pouco mais avançada que a dos egípcios… a “criogenização” das virtudes).

  2. Lindo texto, Cris! E que belas colocações aqui tbm no comentário do Julio! Me faz repensar muita coisa. Grande abraço!

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