Os assassinos estão livres, nós não!

Nem foi preciso que as portas da cadeia fossem abertas. Os muros, as grades e as cercas já não prendem mais ninguém. Aliás, não prendem quem precisa ser preso, porque nós há muito já não estamos livres. Aos poucos a situação vai se transformando. A quem cabe a prisão é dada a liberdade e a quem tem o direito de viver livre é cada vez mais encarcerado.

Duas músicas e um livro poderiam misturar-se e pintar o retrato da sociedade atual. Em “Muros e grades” (Engenheiros do Hawaii), o autor diz “Então erguemos muros que nos dão a garantia de que morreremos cheios de uma vida tão vazia… Os muros e as grades nos protegem de nosso próprio mal”. Cada vez mais as casas são (des)protegidas por muros, cercas elétricas, alarmes e afins. Escondidos dos outros e de si mesmos.

No livro “O alienista” (Machado de Assis), o protagonista, Simão Bacamarte, um médico psiquiatra, começa a internar pessoas em seu hospício, a Casa Verde, com o passar do tempo, tanta gente é internada, que ele inverte as coisas. Interna os sãos e solta os loucos. Por fim ele se interna, por ver que ele é o único são. É isso que fazemos, prendemos os bons e soltamos os maus.

Em “O teatro dos vampiros” (Legião Urbana), o autor diz “Os assassinos estão livres, nós não estamos.”, o que é bem verdade. É uma espécie de anti-lei. Uma inversão total de sentenças. Já que prender os criminosos para manter a segurança da população é difícil, então prendam-se os retos. Cercas, muros, choque, câmera, orações, vigias e tudo mais que for preciso para manter a (in)segurança.

E qual dos assassinos é o mais perigoso? De quem ter mais medo? Do que pulou o muro ou do que cumpre a sentença mas volta a cometer seus delitos? O mais perigoso é aquele que aparece na TV, bate na sua porta e da um tapinha nas suas costas a cada quatro anos. Os homens de terno e gravata que roubam o dinheiro da saúde, da educação, do saneamento e de toda licitação que tiverem acesso e vai matando o povo aos poucos. Os mais perigosos são estes. Nossos representantes. Os primeiros a nos prender, a atar nossas mãos e rir da nossa cara de medo.

About Só para Raros!

Comunicóloga graduada pela PUC Minas, Jornalista e blogueira.

Posted on 25 de Janeiro de 2012, in Uncategorized and tagged , , , , , , , . Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. Oi Cris! Então, resolvi deixar o trabalho por um minuto para ver sua postagem. Infelizmente, tenho que concordar com você e dizer que realmente o tipo mais perigoso é o que da um tapinha nas suas costas de quatro em quatro e que durante este periodo, rouba descaradamente da população. Na verdade, o pior não é a cara de pau desses engravatados, o pior é a burrice dos que o elegem. Ladrões, assassinos, enfim, mesmo sabendo de todo um passado sujo, a população ainda preferem dar poderes para estes, desculpe mas, FDP´s.

  2. Realmente, concordo com as duas da minhas bandas preferidas Engenheiros e Legião. Concordo com sua perspectiva, tenho uma pulga atrás da orelha: as coisas não seriam assim porque as queremos assim? Bom, mesmo que não as queiramos assim, vemos isso como um meio mais fácil de resolver a situação. A violência do mundo nos fere a partir do momento em que ela nos toca e, como vivemos a sociedade do individualismo, erguemos fortalezas ao nossos redor para nos sentirmos intocáveis e seguros, não somente dos bandidos, mas da realidade da vida (e o resto que se dane!). Seres humanos com superpoderes, só mesmo em Smallville e, como não há Kryptonita para alterar a normalidade das pessoas, qualquer bandido pode ser detido. Isso não acontece porque somos brindados por leis porcas que beneficiam bandidos, já que quem as criam são sérios canditados à prisão. Poder-se-ia construir prisões intransponíveis para garantir a segurança das pessoas, se a criminalidade não fosse um setor tão lucrativo no império capitalista (até mesmo carcereiros ganham suas “gorjetas” para deixar passar objetos proibidos de entrar em prisões). Infelizmente, as pessoas que buscam formas de resolver isso são tidas como loucos, aqueles que questionam são tidos como tolos, aqueles que têm esperanças são chamados de sonhadores… enquanto nós, os “normais”, ficamos no nosso cantinho escondidos e esperando que alguém nos acuda. Deixamos de viver a partir do momento que permitimos que alguém dertermine como devemos viver.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: